quinta-feira, 4 de janeiro de 2007


Eu disse: a lua está tão bonita que dói por dentro.[caio fernando abreu]

Não sei bem o porquê de começar a escrever pautada na lua...Ontem nem a vi, trancada estava no quarto!Não tive vontade de sair nem para tomar um ar fresco.Me atenho então aos "afrescos" de Michelangelo pela tela do computador...Ontem aproveitei as nuvens negras do momento vivido e viajei bastante.Passei por Veneza,pelas cidades históricas de Minas, pela cozinha da Adélia Prado,imaginem!

Viajar é sempre bom...Mas na verdade quero falar de um escritor que a cada dia me fascina mais, que até me fez esquecer o que estou vivendo, o momento pouco propício para dissertar qualquer coisa, e me jogo pra contar um pouco o que eu gosto em Caio Fernando Abreu.Uma pena que os bons morram jovens.E Caio foi um desses que se foram sem mais nem menos.Mas deixou escritos maravilhosos, que muitas vezes recorro quando estou querendo algo mais profundo, visceral,melancólico e também estranho!É, textos densos, até agonizantes,mas tão cheios de verdades que parecem escritos para mim.Agora mesmo estou precisando deles,urgentemente!

Me deparo sentada escrevendo isso e recorro aos textos como uma voracidade ímpar.Celular do lado,livros,canções...agora, nada mais inspirador do que uma canção poética,nada mais instigante do que ouvir "o sal da terra", de Beto Guedes/Ronaldo Bastos.

"Quero não ferir meu semelhante/nem por isso quero me ferir..."

Essa canção,pelo menos acho, cai como uma luva nesse momento.Melancólico momento.Sou o tipo de pessoa que o mundo desaba sobre minha cabeça e eu consigo separar situações.Não era assim não,mas a vida me ensinou a ser assim.Quantas vezes chegava no trabalho com um sorrisão no rosto e um coração triste! A arte de se esconder para não cometer injustiças.E o engraçado que lendo a biografia de Caio Fernando[nome lindo, que adoro!] percebo que esse também era um hábito dele, se esconder para não se mostrar demais, com vários receios no coração.

Mas, não quero falar de mim,do meu momento. Quero deixar aqui um trecho de uma crônica que o escritor escreveu pro "Estado de S. Paulo", em 1986.

Um texto que na verdade não é tão denso como a maioria dos que já escreveu,mas de denso,hoje, basta eu!

Dois ou três almoços,uns silêncios.
fragmentos disso que chamamos de 'minha vida'.

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

(Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", 22/04/1986)

2 comentários:

Evan disse...

Estou boqueaberto. Ainda não conhecia a escrita do Caio Fernando Abreu.
Estou há dez minutos tentando achar um escritor para comparar com Caio Fernando Abreu. Está difícil.
Talvez a melanciolia de Tom Yorke, do Radiohead, mas com o estilo de escrita de Fernando Pessoa... sei lá...
Não dá para compará-lo ao certo, definitivamente.

Obrigado por me mostrar isso, procurarei mais do mesmo.

Beijos, melhoras,

Evan.

luiz disse...

Nossa, que melancolia hoje...

"Sorrio, então. E quase paro de sentir fome."

Perfeito. Sublime. Verdadeiro.

E os seus escritos continuam mais e mais significativos a cada dia.


Não conhecia, mas juro que depois dessa eu vou dar uma mais de uma olhada.